Mitos e medo do parto Normal

 

MEDOS E MITOS NO PARTO NORMAL 

(Por Eleonora de Moraes)

Muito provavelmente não existe assunto mais envolto em medos, tabus e mitos do que o tema “parto”.  Quem está ou já esteve grávida um dia sabe bem o que é ouvir da manicura, da vizinha ou de conhecidos próximos, histórias tenebrosas sobre bebês que morrem na barriga, dos bebês que ficam com paralisia cerebral por causa do parto, do líquido que seca, do cordão em volta do pescoço que sufoca o bebê e por aí vai.
A mensagem por detrás das linhas é o de que as mulheres de hoje são mesmo incapazes de parir seus filhos em segurança e que passar pelo parto normal é algo extremamente perigoso e antiquado. De fato, se fosse mesmo assim, nossos antepassados seriam todos paraplégicos, teriam cabeças tortas ou a espécie humana teria simplesmente se extinguido.
Pensando em proteger nossos ouvidos e nosso coração de tamanho “ataque” e fortalecer escolhas conscientes, vamos desvendar aqui alguns mitos que cercam o parto normal, tendo como norte as evidências científicas e algum conhecimento sobre fisiologia do parto.

Falta de dilatação – “Meu útero não dilatou e teve que ser cesárea.”
Tecnicamente falta de dilatação não existe. Existem tempos diferentes para cada mulher dilatar. É muito comum ver mulheres chegando cedo demais no hospital, ainda em pródromos ou em um falso trabalho de parto.  Pode acontecer sim uma evolução difícil da dilatação, ou uma dilatação que estaciona em alguns cm e não vai para frente. Provavelmente alguma “interferência” do ponto de vista emocional ou até mesmo do ambiente externo (excesso de luzes e pessoas observando, ar condicionado forte, clima tenso) pode estar interferindo negativamente e caberia à assistência eliminar tais estímulos e ajudar a mulher a enfrentar seus medos e ir em frente.

Cordão umbilical enrolado – “O cordão estava em volta do pescoço do bebê, se fosse parto normal ele iria se enforcar e morreria.”
Pra começo de conversa mais de 30% dos bebes nascem com circular de cordão e nascem de parto normal muito bem, obrigado. O cordão umbilical é bem comprido e é preenchido de uma gelatina elástica e todo torcido, preparado justamente para não interromper o fluxo de sangue se for dobrado ou enrolado. O bebê recebe oxigênio através do sangue que passa pelo cordão umbilical e não respira pelos pulmões justificando que iria sufocar, enforcado no cordão.  Pode acontecer alguns casos raros (bem raros mesmo) de haver um cordão umbilical curto demais, o que impediria a saída do bebê do útero se estivesse com circular. Isto seria detectado durante o trabalho de parto (pela escuta dos batimentos cardíacos do feto) e aí sim uma cesárea seria necessária e bem vinda.

Medo da dor - Muitas mulheres dizem que não conseguiriam passar por um parto normal por serem muito sensíveis à dor.
Na verdade não sabemos como é a dor do parto antes de passar por ela. Não sabemos como iremos reagir. A dor do parto é sábia, vem em ondas dando um intervalo de descanso entre uma onda e outra, nos permitindo recuperar as forças. A dor faz com que o organismo libere diversos hormônios fundamentais para este período, que irão interferir até mesmo na amamentação. Um destes hormônios é a endorfina, que é um analgésico natural. Nos sentimos como atletas no final de um grande jogo. Mesmo com dor, mesmo com contusões, seguimos adiante em busca da vitória e do grande prêmio que é ter o bebê nos braços no final da partida. O processo da dor permite que nos descubramos cada vez mais fortes e capazes. Quantas mulheres não se surpreendem com a força que têm depois de um parto! E esta força nos garante muita confiança para cuidar de um recém-nascido. Vale a pena tentar e conhecer de perto as diversas técnicas de alivio de dor e desconforto como o uso da água, posições, massagens e até mesmo a anestesia na fase final do parto.

Cesárea é um procedimento indolor – 

“Tenho muito medo da dor do parto, então já marquei a data da cesárea.”
Eis um grande mito. O corte da cesárea geralmente dói de forma contínua por algumas semanas ou até meses depois do parto.  Bem quando precisamos estar inteiras para cuidar do bebê. Vale a pena lembrar que uma cesárea é uma cirurgia de grande porte, corta sete camadas de tecido, incluindo o músculo abdominal. No momento da cirurgia, estamos anestesiadas, mas geralmente sentindo todo o processo de abrir e mexer com o bebê e com o útero, sensação que pode ser bastante aflitiva para muitas mulheres.

Bacia estreita ou bebê grande demais.

A idéia aqui é que a cabeça do bebê seria maior do que a bacia da mãe e não poderia passar pelo canal de parto. Esta desproporção pode até acontecer, mas em alguns casos raros. O fato é que é tecnicamente impossível saber se o bebê não vai passar antes que o trabalho de parto tenha começado e a dilatação esteja completa. Ou seja, só é possível diagnosticar um caso real de desproporção entre cabeça do bebê e pelve da mãe, no final do trabalho de parto. E, mesmo que se encaminhe para a cesárea, mãe e bebê tiveram muitos ganhos, do ponto de vista hormonal e psíquico, por terem passado pelo trabalho de parto.

Parto demorado – A idéia aqui é que se um parto for muito demorado o bebê estaria correndo sério risco de vida.
Na verdade não existe um padrão de tempo pré-determinado para o parto acontecer. Cada mulher tem um tempo próprio para parir. Um parto pode demorar 1 hora como pode demorar 3dias.
O que interessa é avaliar adequadamente se os sinais vitais do bebê e da mãe estão bem, o que se faz pela escuta dos batimentos fetais e da pressão e vitalidade da mãe. Enquanto estes sinais estiverem num padrão tranqüilizador, então o parto está no tempo certo.
Parto normal “estraga” a mulher – A idéia aqui é de que a passagem do bebê pela vagina alargaria o canal de parto, deixando a mulher “alargada” e  interferindo negativamente no prazer sexual do casal.
Eis um grande mito. O canal por onde passa o bebê é como um diafragma , a vagina e o períneo (musculatura que envolve a entrada da vagina e ânus) são grandes e fortes músculos e sendo assim, tem a capacidade de relaxar e contrair, voltando ao tamanho normal ou muito próximo ao normal depois do parto.  A vivência do parto e a percepção de que é possivel utilizar esta musculatura pode melhorar e muito a vivência sexual da mulher e de seu parceiro. A melhor forma de prevenção da frouxidão da vagina ou da bexiga é através de exercícios que podem ser feitos com o períneo.  Evitar o parto normal ou submeter-se a episiotomia - corte cirúrgico feito na vulva e vagina para acelerar o parto – para evitar de ficar “ alargada” é um grande mito cultural hoje impregnado em nossa sociedade e que vem sendo lentamente revisto pela literatura científica.
Mais mitos e medos ainda povoam a idéia de parto na nossa cultura atual. Falar sobre todos daria certamente um extenso livro. Mas vale aqui lembrar que o gênero humano teve mais de 2 milhões de anos para aperfeiçoar a fisiologia da gestação e do parto. Se herdamos defeitos, herdamos também soluções adaptativas. Talvez jogar luz do conhecimento sobre mitos e medos culturais da nossa atualidade seja um caminho necessário para os dias atuais.

Eleonora de Moraes

Psicóloga, doula (acompanhante de parto) e educadora perinatal
Coordenadora do Despertar do Parto

 

 Extraido de: <http://www.despertardoparto.com.br/medos-e-mitos-no-parto-normal.html> Acessado em 19 de Outubro de 2014

Calvino e a Confissão de Fé

A CONFISSÃO DE FÉ DA GUANABARA (1558)


( por: Alderi Souza de Matos)


Uma das mais antigas declarações da fé reformada foi escrita no Brasil, em meados do século XVI. Seus autores foram huguenotes (calvinistas franceses) enviados pelo próprio reformador João Calvino e pela Igreja Reformada de Genebra. O contexto desse notável documento foi a França Antártica, uma colônia criada na baía de Guanabara, em novembro de 1555, pelo militar Nicolas Durand de Villegaignon. Desejoso de colonos com valores mais sólidos, o comandante escreveu a Genebra pedindo o envio de evangélicos. Em resposta, a Igreja mandou um grupo de catorze pessoas, entre as quais dois pastores. O pequeno contingente desembarcou no Rio de Janeiro no dia 10 de março de 1557, ocasião em que foi realizado o primeiro culto protestante no Brasil e nas Américas.


No início, Villegaignon mostrou-se simpático aos recém-chegados. Todavia, logo começou a divergir dos reformados em relação a várias questões doutrinárias, em especial a singela celebração da Ceia do Senhor. No final de outubro, expulsou-os da pequena ilha para o continente. Impossibilitados de dar continuidade ao seu trabalho, no início de 1558, eles retornaram para a pátria. Todavia, diante das condições precárias da embarcação, cinco dos calvinistas decidiram voltar à terra firme. Acusados pelo comandante de serem traidores e espiões, eles foram presos e receberam um questionário sobre pontos teológicos, tendo poucas horas para respondê-lo. A resposta, escrita com tinta de pau-brasil pelo leigo Jean de Bourdel, ficou conhecida como Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense. Os outros signatários foram Pierre Bourdon e Matthieu Verneuil.


A confissão, escrita originalmente em latim, tem a forma de um credo, pois a maior parte dos parágrafos começa com a palavra “cremos”. Todavia, sua extensão e variedade de temas a coloca na categoria das confissões de fé, comuns na época da Reforma. A seção introdutória faz uma bela aplicação do texto de 1 Pedro 3.15. Os dezessete parágrafos de diferentes tamanhos tratam de seis questões principais: (a) 1-4: a doutrina da Trindade e, em especial, a pessoa de Cristo, com as suas naturezas divina e humana; (b) 5-9: a doutrina dos sacramentos, sendo a Ceia tratada em quatro artigos e o batismo em um; (c) 10: o livre arbítrio; (d) 11-12: a autoridade dos ministros para perdoar pecados e impor as mãos; (e) 13-15: divórcio, casamento dos religiosos e votos de castidade; (f) 16-17: intercessão dos santos e orações pelos mortos. O texto revela grande conhecimento da Bíblia, da teologia e da história da Igreja por parte do autor. São feitas referências ao Concílio de Nicéia e seu credo, bem como a vários Pais da Igreja: Agostinho, Tertuliano, Ambrósio e Cipriano. O documento tem um forte teor bíblico e reformado, destacando pontos como a centralidade da Escritura, a natureza simbólica dos sacramentos, a supremacia de Cristo, a importância da fé e a eleição, entre outros.


Sob alegação de heresia, na sexta-feira 9 de fevereiro de 1558, Villegaignon ordenou a execução de Bourdel, Bourdon e Verneuil. André Lafon foi poupado por vacilar nas suas convicções e ser o único alfaiate da colônia. Jacques Le Balleur, que havia conseguido fugir, mais tarde foi encarcerado na Bahia e executado no Rio de Janeiro. A história dos mártires calvinistas, escrita por Jean de Léry, e o texto da confissão foram incluídos no livro História dos Mártires (1564), de Jean Crespin. Em 1917, sob o título A Tragédia da Guanabara, o presbítero Domingos Ribeiro publicou essa narrativa em português, junto com a tradução da confissão de fé feita por Erasmo Braga em 1907, a pedido do Rev. Álvaro Reis. Essa obra está prestes a ser lançada em nova edição pela Editora Cultura Cristã.

 

Extraido de: <http://www.mackenzie.com.br/7053.html> acessado em 02 de Outubro de 2014

Psicologia e Deus

PSICOLOGIA E DEUS

Um profissional da psicologia pode acreditar em Deus? A psicologia necessariamente implica em um ateísmo?

Para responder totalmente tais perguntas seria preciso um longo tempo ou um longo espaço, pois é possível escrever um livro para dar uma resposta total e completa.

Este texto, procura responder de forma breve à este questionamento e, mesmo sendo um pequeno texto e não um livro, procura ser o mais amplo possível.

A psicologia é uma disciplina acadêmica moderna. Nasce no século XIX, bem depois do surgimento das primeiras disciplinas científicas: a física, a química, a biologia e pouco antes, a sociologia. Sendo um desdobramento das pesquisas realizadas com a perspectiva da ciência, já possui em si uma grande separação de questões teológicas, ou seja, a respeito de Deus e da relação do homem com Deus.

O ponto que é importante notar aqui é que com relação às questões essenciais para a teologia, a psicologia se cala. A psicologia procura responder à perguntas específicas sobre os processos mentais, emocionais e afetivos, comportamentais.

Em outras palavras, se você deseja saber sobre a origem do homem, do universo, se existe Deus ou deuses, qual é o caminho para a espiritualidade, você encontrará respostas não na psicologia, mas sim na teologia – seja de qual corrente for.

Pois desde o século XV, com o surgimento da física, ocorre no mundo ocidental uma separação de saberes. De um lado encontramos a teologia (com questões relativas à Deus, sua revelação, a Bíblia) e no outro extremo a física, que buscava compreender o nosso mundo físico, as leis do movimento dos corpos, ou seja, sempre questões particulares, específicas.

Por exemplo, saber que água evapora a 100 graus Celsius não afeta o conhecimento da existência ou não de Deus, certo? É um outro tipo de resposta, pois se faz um outro tipo de pergunta.

A psicologia utilizou e ainda utiliza modelos de explicação, testes laboratoriais, paradigmas que surgiram antes em outras ciências. E, do mesmo modo, podemos dizer que saber a probabilidade da emissão de um comportamento, ou analisar um sonho, ou entender as ações de uma pessoa em grupo não afeta o conhecimento da existência ou inexistência de uma realidade transcendente.

Portanto, a psicologia não responde à pergunta sobre Deus (ou deuses) pois a pergunta não é feita em suas pesquisas.

Uma outra questão que me é feita é sobre se o profissional da psicologia, em seu consultório ou trabalho, pode ser religioso e ter uma religião.

Para responder, gosto do seguinte exemplo: imagine que você vai até um dentista tratar uma dor de dente. O dentista avalia e precisa fazer um procedimento de obturação. O paciente pode rezar, fazer uma meditação ou Yoga, mas provavelmente não vai dispensar a anestesia. A anestesia é um procedimento técnico utilizado tanto na medicina quanto na odontologia. Ela faz com que o paciente não sinta dor.

Do mesmo modo, se um paciente chega no consultório de um profissional da psicologia com um determinado problema específico, ele está buscando ajuda profissional. Pode até ajudar rezar, fazer meditação ou Yoga, mas os procedimentos utilizados pelo psicólogo ou psicóloga serão específicos da área de conhecimento e não terão nada a ver com conhecimentos teológicos ou religiosos.

De forma que é indiferente se o profissional da psicologia acredita ou não acredita em Deus. A psicologia não é teologia e, dizendo novamente, não faz as mesmas perguntas sobre o ser, sobre Deus e sobre o homem que o teólogo, sacerdote, padre ou pastor faz.

E ainda, uma outra questão, refere-se ao seguinte. E se o profissional da psicologia encontrar um paciente que tenha uma crença diferente. Por exemplo, um profissional que é ateu e deve atender um paciente religioso (seja judeu, muçulmano, católico, protestante, budista…)? Ou pode ocorrer o contrário: e se um profissional que é profissional mas em sua vida privada acredita em uma determinada crença e deve atender um paciente ateu ou que acredite em algo totalmente diferente?

A psicologia possui um Código de Ética, um código de conduta muito bem estruturado. Além do sigilo profissional, um valor fundamental para os atendimentos é o respeito pela singularidade, individualidade e liberdade do ser humano – visando sempre o bem estar de cada um e da sociedade em que estamos inseridos.

 

Então, respondendo às perguntas: um profissional da psicologia pode acreditar em Deus? A psicologia necessariamente implica em um ateísmo?

  -- Sim, um profissional da psicologia pode acreditar em Deus, ter uma crença religiosa específica. Mas tal crença é particular, faz parte de sua vida privada. Não vai ou deve afetar sua prática profissional.

 E com relação à outra pergunta: não. A psicologia não implica em uma ateísmo. Os conhecimentos reunidos pela psicologia até os dias atuais não são perguntas que buscam responder sobre a existência de Deus. Por isto, elas não implicam em um ateísmo, do mesmo modo que também não implicam em uma determinada crença religiosa.

Extraido de: https://www.psicologiamsn.com/2012/05/psicologia-e-deus.html . Acessado em 21/09/2014.

 Leia também a continuação do texto aqui:
Psicologia: Interpretação dos fenômenos religiosos

 

 

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